domingo, 25 de janeiro de 2015

“É a realização de um sonho, de vida...”

De limousine e com os olhos brilhando de felicidade, Sarah - “princesa” em grego - segue para a festa de quinze anos (completos em 15 de novembro), no Clube Atlântico. A discotecagem no carro de luxo conta com jogo de luzes coloridas que dançam sobre a moça e seus principais convidados: a mãe, Cleide Regina, a amiga de infância Maria Antônia, e (nada menos que) o homem considerado o mais bonito do mundo, o Mister Universo Bruno Mooneyhan, príncipe da festa. O serviço de bordo foi feito especialmente para ela, com achocolatado, batata frita, açaí e outras guloseimas. Ricardo Sérgio é empresário e o próprio chofer da limousine. Todo ano passeia com uma equipe de meninas debudantes do Grupo de Apoio a Crianças com Câncer (Gaac). Na última sexta-feira foi diferente. 

O evento é realizado no meio do ano, mas Sarah Regina não participou. O diagnóstico de câncer foi em julho e ela chegou à Casa em agosto, quando a festa já havia sido realizada. Aí a menina descobriu que poderia ter realizado um grande desejo se tivesse chegado pouco antes: conhecer uma limousine. “Sempre tive curiosidade”, diz ela. Uma opção seria aguardar a próxima comemoração, já que ainda teria 15 anos em julho de 2015. Mas para quem tem câncer, tudo é urgente.  

“Meu Deus, eu preciso fazer essa menina feliz”. A vontade natural de todas as mães é súplica na voz de Cleide, quando olha para os sonhos da filha que há seis meses luta contra um tipo de câncer raro, PNET paravertebral sistêmico. A doença atingiu coluna, na região lombar, crânio, pulmões e fígado. 

Quando adoeceu, a moça morava com o pai, a madrasta e o irmão, Alexandre, de 17 anos, em Mato Grosso do Sul, após ter passado temporada de dois anos em Belém com eles.

Ela se queixava de dores na lombar há um ano. Foi ao médico algumas vezes, tomava analgésicos e o problema persistia. “Os médicos não passavam exames de alta complexidade. Faziam raio-x e mas não mostrava o tumor maligno. Quando resolveram investigar mais o caso dela já era tarde”, lamenta a mãe, que também já teve câncer em uma das mamas e fez mastectomia preventiva, retirou os dois seios. 

Nos últimos meses a vida das duas mudou muito. Sarah conseguiu concluir o 9° ano na Escola Municipal Santos Reis, bastante elogiada. “Dentro do Hospital Varela Santiago existe a pedagogia para que ela acompanhe a grade curricular. A escola é de referência. Eles pediram que ela se auto avaliasse. Isso não é fácil. Ela foi bastante criteriosa e conseguiu concluir. Eu passei por isso só no Ensino Superior”, conta. 

Além de estudiosa, a adolescente gosta de desenhar e cantar hinos evangélicos e músicas pop, como a de Lucas Lucco e do sertanejo Luan Santana. “Gosto de muita coisa, mas adoro eles. E ainda vou conhecer Caio Castro”, confabula, sorrindo para Maria Antônia, a amiga que fez na escola quando criança.

“A farda era um short e só nós duas fomos de saia nesse dia. Isso aproximou a gente e ficamos amigas a partir daí”, Maria lembra, ensinando que a diferença pode juntar e separar as pessoas ao mesmo tempo. 

Agora isso acontece todos os dias com Sarah. A queda dos cabelos, por causa do tratamento quimioterápico, chama atenção. “Geralmente ela não usa peruca nem lenço. Eu explico que as pessoas ficam olhando, não por serem grosseiras, mas porque não foram orientadas para lidar com isso. Eles não fazem por mal, mas é um olhar que machuca. Sarah aceita e gosta de andar assim. Ela é bem original”, orgulha-se a mãe, que é psicóloga. 

Para a festa, colocou uma tiara delicada de flores brancas iluminando o rosto moreno claro. O longo tomara que caia, as unhas e o batom combinavam com com bolo e docinhos. O sonho é cor de rosa. 

Compaixão e solidariedade
“A finitude é para todos. Nós temos uma senha, mas não sabemos quando vamos ser chamados. O diagnóstico de câncer não é sentença de morte. Quantos já morreram por quaisquer motivos depois que Sarah descobriu o câncer?”. A reflexão de Cleide Regina acalenta. É palavra de mãe. Mas ela avisa que muitos podem ajudar centenas de crianças e adolescentes que passam por problemas como o de sua filha de 15 anos. 

Além do passeio na limousine, teve bolo, docinhos e dança

“Ninguém é tão pobre que não tenha nada pra dar. Mais importante que falar da festa, é sensibilizar as pessoas a doarem sangue, por exemplo. Não custa nada doar sangue. O que nós vamos fazer com tanto sangue?”, pergunta, quase brincando. 

Cleide conta que depois de duas semanas de internação, já não consegue distinguir os dias da semana, exceto os domingos. É quando voluntários se juntam para visitar as crianças. “Rapazes e moças super bonitos que nem são palhaços, mas colocam aquele nariz vermelho e fazem umas mágicas que a gente vê tudo por trás, mas as crianças adoram, se divertem muito”. 

Para ver o espetáculo “atrapalhado”, Cleide abre as cortinas, não de um palco, mas do isolamento em que Sarah precisa ficar quando a imunidade cai muito. Com a doença em vários órgãos, o tratamento precisa ser forte. Elas também. E pra isso conta com o carinho de muitas pessoas. 

Quando Sarah fala do padrinho, parece alguém que a viu crescer. Mas não. É Ricardo Sérgio, o proprietário do carro citado no começo da reportagem. Foi ele quem preparou a festa. No começo era um passeio, mas resolveu completar a surpresa, alegria que ajuda no tratamento da menina. 

A defesa imunológica de Sarah aumentou quando soube da comemoração. E Cleide conta que nesta semana, ela pediu para ir à praia sentir a areia nos pés e à igreja, onde foi surpreendida com a cantora carioca Danielle Cristina, cantando o seu hino preferido, “Fidelidade”.

“Eu soube na terça da festa. Foi tudo meu padrinho que fez”, conta a debutante. “É a realização de um sonho. Tive três festas de quinze anos. A primeira eu fui com um vestido egípcio, de Cleópatra, na Academia Higashi. A segunda foi na casa da minha tia com o pessoal da igreja. Mas acho que essa é a mais legal”.

Ricardo diz que o presente é ele quem ganha. “Quando a gente tem é muito bom doar. Não as sobras. Falo de dispor do tempo da gente para o outro. Eu mudei minha rotina nesses três dias com os preparativos.  Fiz uma coisa pequena, mas se ela acha que é o máximo, então é”, fala, pedindo a todos que multiplique esse tipo de ação. “Se todos dessem um pouquinho de si, o mundo estaria melhor”. 

Com carinho, os dois se abraçam várias vezes durante a festa. “Eu trabalho com luxo e hoje ela é meu brilhante”. 

Pra completar o glamour da festa que teve a presença de alguns amigos, familiares e da direção e especialistas do Gaac, o Mister Universo cancelou alguns compromissos. “Mas isso é o mínimo” para Bruno Mooneyhan. “Não podia deixar de vir. Ela alegrou meu dia. Ela sorri o tempo todo”. 

Bruno conta que seu envolvimento com causas sociais veio muito antes do concurso de beleza. “Nossa empresa, [de automação residencial] ajuda três casas de apoio e sempre que posso faço visitas. Ando distante delas porque estava morando em São Paulo. Mas há duas semanas me restabeleci em Natal”.

Atitudes como essa fazem toda a diferença para quem tem que passar dias, meses e até anos em tratamento. Cleide conta que chorou muito nas primeiras vezes em que os voluntários serviram o lanche da manhã. “As crianças e nós acompanhantes chegamos às 7h para os exames, mas os médicos só atendem por volta das 11h, 12h. É muito bonito o que eles fazem. Às vezes não precisa nem doar nada. Basta estar ali para servir”. 

“Sarah dizia: ‘pare de chorar, mamãe’, mas isso me comove. Não é de tristeza que choro”, diz, lembrando que a filha é sempre otimista e destaca frases da filha. 

“Você acredita que os puros verão a face de Deus?” 

“Não se preocupe, eu fui muito feliz”. 

“Eu tenho curiosidade em saber como é o céu”. 

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